

A GANGUE DOS IMPOSSÍVEIS
Eram todos parceiros inseparáveis, como uma gangue infalível. Uns completavam os outros.
Um moderno, um conservador, um romântico, outro objetivo, um nervoso, outro um Buda. Mas naquela hora triste, era como se um polvo perdesse um tentáculo. A fotografia antiga, mostrava a cumplicidade de todos. Mas como seria agora? Sem ele como a cola, a juntar todos os outros? Nunca mais seria a mesma coisa. Num último esforço, cada um foi despedir se dele: Carlos chorava copiosamente, Helena, também em lagrimas, o abraçou, Elen ficou distante, sem força e coragem, mas Eduardo a pegou gentilmente pelo braço e a levou junto ao caixão; ela também desabou. Eduardo era o mais forte, estava triste, mas permaneceu firme por todo o velório. Luísa foi a última, com os olhos levemente marejados, tocou nas mãos dele, e rezou uma prece silenciosa. A hora chegou, Eduardo fez um discurso controlado mas comovente, muitos choraram. O caixão foi fechado e, num cortejo pesado, o levaram para a morada final. Desceram o corpo naquele buraco insensível e pareceu que a história daquele ser era soterrada ali, quando de repente, segundos após o sepultamento, quando todos já se dirigiam para suas vidas cotidianas, um menino de uns 11 anos, mais ou menos, deu um assovio alto. Era um som conhecido apenas pelos componentes da gangue. Eles fixaram o olhar no infante, estarrecidos, sem entender nada. O garoto conseguiu seu intento, chamou a atenção de todos. Eduardo atônito, mas bravo, tentou questionar o menino que o interrompeu com um gesto familiar. Eduardo se calou. Eles se entreolharam. Então o jovem falou: Sou filho de Guto (era assim que todo mundo o chamava). Vim aqui para lhes dizer algo que ele gostaria que soubessem. Não é o fim, nunca é, Será sempre um recomeço. E não por causa somente do que sou, mas do que vocês podem me dizer do que ele foi. Tive tão pouco tempo com meu pai, pois só descobri recentemente sua existência, mas o pouco tempo que tive foi o suficiente para ama lo, e por consequência, amar vocês. Mas preciso saber mais, Para que eu possa entender sua vida e aceitar sua morte. Por isso peço a vocês, desta gangue tão fantástica, me digam, quem foi ele? Eduardo, o mais firme, não suportou aquele momento, com uma Lágrima atrás da outra em seus olhos outrora controlados, se dirigiu ao menino e lhe deu um abraço forte, os outros também o fizeram. Naquele momento, parecia que Guto voltava pra gangue dos impossíveis.
Ita poeta
Enviado por Ita poeta em 22/10/2025
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